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Campanha presidencial 2006 e mensaleiros

Aborda a questão da ética nos gastos da campanha presidencial de um candidato que se apresenta como de origem pobre e como ex-operário.

Direito Eleitoral | 31/jul/2006

Não começou bem a campanha da reeleição do presidente Lula. Após muita discussão, foi escolhido o petista José Filippi Jr., que se licenciou do mandato de prefeito de Diadema, para ser o tesoureiro da campanha presidencial do PT. O novo responsável pelas finanças da atual campanha petista teve suas últimas prestações de contas rejeitadas pelo TCE. Além disso, responde a ações por improbidade administrativa, por atos cometidos durante sua gestão na Prefeitura daquela importante cidade do ABC paulista.

Ao conceder sua primeira entrevista na condição de sucessor de Antônio Palocci, o novo tesoureiro disse que ficou “três noites sem dormir”, preocupado com o que poderia vir pela frente. Segundo ele mesmo admitiu, “a história deste cargo não é muito boa”. Sua preocupação maior é a de ser chamado de PC Farias de Lula ou de Delúbio 2, o ex-tesoureiro do PT, expulso do partido por causa do esquema de corrupção conhecido por Mensalão.

Com o mar de corrupção praticado pela base aliada petista no Congresso Nacional (aí incluídos petistas de primeira linha!), fica muito difícil dissociar a administração financeira da atual campanha presidencial do Partido dos Trabalhadores do hediondo esquema do Mensalão. A verdade é que Collor teve um PC Farias e o PT tem vários. PC Farias parece ter agido de forma isolada e excludente.

Já o PT parece ter planejado e executado um amplo esquema de corrupção, a partir do assalto à burocracia do Estado. Tudo indica que, para se manter (e manter) o poder, o Partido dos Trabalhadores – com o dinheiro drenado do Valerioduto – comprou votos, mandatos e consciências política e se deixou envolver pela prática sistêmica da improbidade administrativa e da corrupção desenfreada.

Tudo isto parece verdadeiro, mas não tem sido suficiente para comprometer a vantagem eleitoral do presidente Lula. Um pouco, por seu carisma de líder político. Outro pouco, por sua competência de saber passar ao povo a imagem de um brasileiro pobre e politicamente bem sucedido. Outro tanto, porque o povo acha que sempre houve corrupção e que a o PT é apenas uma continuação da prática anterior (o que, em parte, é verdadeiro!).

Enfim, o povo acredita que todos os políticos são corruptos. Por isso, na falta de um outro candidato seguramente honesto e livre das “impurezas” que envolvem a atividade política, a alternativa é a de votar no candidato que mais se identifica com o estereótipo do eleitor pobre e da pobreza brasileira.

Portanto, se após um ano de Mensalão, Vampiros, Sanguessugas e outros esquemas de corrupção, que fazem sagrar o patrimônio ético e financeiro público, o presidente continua firme na dianteira da corrida presidencial, não haveria motivos para a preocupação manifestada pelo atual coordenador financeiro da campanha petista.

Mas, a verdade é que o ex-prefeito tinha, sim, motivos para estar preocupado com a inevitável exposição de sua biografia políticoadministrativa na vitrina da mídia nacional. Nada a ver – diretamente, é claro, com o ex-tesoureiro Delúbio Soares - nem com PC Farias. Sua preocupação, era consigo próprio. Já nos primeiros dias no comando das finanças da campanha petista, é objeto de mais uma investigação pelo MP paulista. Executado judicialmente, numa ação por gasto indevido de dinheiro público, não conseguiu comprovar a origem do dinheiro do pagamento, no valor de 183 mil reais. Uma das hipóteses com que trabalham os promotores de justiça é de que o dinheiro possa ter vindo do esquema do Mensalão.

É claro que o ex-prefeito petista tem o seu álibi para o misterioso pagamento: “o dinheiro é do tio Moreira. Ele é o tio mais rico da minha mulher. Fez uma contribuição a título de empréstimo”.

Com Lula no poder, os petistas aprenderam, rapidamente, a criar explicações as mais inverossímeis para as encrencas em que se meteram muitos de seus militantes, flagrados com a mão no dinheiro sujo da corrupção. Basta lembrar das versões levianamente desdenhosas e surrealistas ou dos álibis engenhosos (ou mentirosos!) apresentados para explicar o recebimento, documentalmente comprovado, de dinheiro do Valerioduto de alguns de seus parlamentares (vergonhosamente absolvidos pelo plenário da Câmara), de uma caixa de uísque com dólares, transportada em vôo de Brasília para São Paulo ou do dinheiro na cueca.

Nesse novo episódio, que cheira à improbidade administrativa, é claro que o tio Moreira também acabou confirmando o empréstimo ao ilustre sobrinho e disse que a investigação do MP é coisa do PSDB. Para confessar sua isenção, disse que “política é coisa mais nojenta do mundo”., acrescentando que “não vota no Lula, iria votar no Alckmin, mas, agora, está pensando em votar na Heloísa Helena”.

Tio Moreira deve ser um honrado comerciante e agropecuarista de Diadema. Por isso, sua versão do fato deve ser considerada verdadeira até prova em contrário. Mas, dá para perceber que, no seu ímpeto de imparcialidade extremada, acabou exagerando na dose. Fica muito difícil crer na sua intenção de voto. Na verdade, se o tio do tesoureiro da campanha do PT emprestou ao sobrinho a elevada importância de 183 mil reais, sem qualquer garantia e sem qualquer intenção de cobrar a dívida, deverá, sim, votar no candidato do sobrinho.

Por isso, se o tio Moreira não está dizendo a verdade quanto a sua intenção de voto para a escolha do futuro presidente da República, é razoável desconfiar, também, de sua declaração sobre o empréstimo ao sobrinho ex-prefeito de Diadema e, agora, coordenador financeiro da campanha petista.

Por outro lado, o candidato petista, que tem feito um competente discurso político sobre sua origem pobre, precisa também explicar a origem de seu patrimônio, que dobrou em quatro anos e foi declarado em 839 mil reais. Só em fundos de investimentos, nosso presidente tem uma conta de mais 330 mil reais. Não é uma grande fortuna, mas é um excelente patrimônio mobiliário para quem se apresenta com a biografia de ex-metalurgico e líder operário.

É paradoxal, mas candidato dos pobres é o mais rico dos candidatos à presidência da República. Se sua pequena fortuna é resultado de muita economia, conforme informaram seus assessores, o povo precisa conhecer essa fórmula mágica de economizar dinheiro.

Como um dos privilegiados brasileiros credor do Tesouro Nacional, o presidente Lula não deve estar preocupado com o tamanho da dívida pública do Estado brasileiro, em títulos federais, que em junho ultrapassou a barreira de R$ 1 trilhão. A República se endivida e o presidente acumula renda auferida no mercado financeiro protegido pela política econômica herdada do governo anterior e preservada rigorosamente por seus ministros da fazenda.

O Brasil é um país realmente estranho: o candidato dos pobres e que faz um discurso apologético à sua origem de pobreza é o mais rico dos concorrentes ao cargo.

Quanto aos deputados mensaleiros, beneficiados com vergonhosas absolvições no plenário da Câmara, a notícia é de pretendem concorrer à reeleição. A tropa dos parlamentares mensaleiros - com João Paulo Cunha, professor Luizinho e Sandro Mabel à frente – acreditam que o eleitor não vê nada, não sabe e nem escuta nada. No mínimo, pensam que o eleitor não tem memória ou tem memória curta.

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