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Pedido de recuperação alcança crédito de contrato a termo de moeda com vencimento posterior

Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça

A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) que determinou a submissão de um crédito de mais de R$ 7 milhões, relativo a contratos a termo de moeda (Non-Deliverable Forward, ou NDF), ao plano de recuperação judicial de uma empresa de fertilizantes.

O colegiado concluiu que os créditos decorrentes de contratos a termo de moeda submetem-se aos efeitos da recuperação ainda que o vencimento ocorra após o deferimento do pedido de soerguimento.

No contrato a termo de moeda, há uma operação de proteção (hedge) diante de riscos decorrentes da variação cambial, relacionados especialmente à eventual perda de paridade em negociações realizadas por quem vende predominantemente em determinada moeda, mas adquire insumos em outra.

Exigibilidade submetida a evento incerto

"O evento que torna exigível a prestação por um dos contratantes é incerto (taxa de câmbio futura), mas a obrigação de pagar, apesar de sua indeterminação inicial, foi assumida já no momento da assinatura da avença", afirmou a relatora do recurso especial, ministra Nancy Andrighi, ao confirmar a necessidade de submissão do crédito à recuperação, nos termos do artigo 49 da Lei 11.101/2005.

No recurso, o banco credor alegou que os créditos derivados de contrato a termo de moeda teriam natureza extraconcursal, pois seus fatos geradores ocorreram depois do deferimento do pedido de recuperação.

Ainda segundo a instituição, as operações NDFs seriam assumidas no âmbito de câmaras ou prestadoras de serviços de compensação e liquidação com regulamentação própria, de forma que seriam aplicáveis os artigos 193 e 194 da Lei de Falência e Recuperação – que impõem um modo específico de liquidação de créditos.

Condições que se realizam no futuro

A ministra Nancy Andrighi explicou que, no momento do vencimento do contrato NDF, se a taxa de câmbio estiver maior do que no momento da contratação, o contratante receberá do banco essa diferença positiva; por outro lado, se a cotação estiver mais baixa, o contratante deverá pagar a diferença negativa ao banco. 

"Disso se pode concluir que, à época em que tais contratos são celebrados, além da ausência de definição do valor pelo qual serão liquidadas as obrigações assumidas, também inexiste determinação de quem será o beneficiado pelo ajuste a ser efetivado, haja vista que o resultado das operações NDF está vinculado diretamente à taxa de câmbio futura", disse a relatora.

Nancy Andrighi lembrou também que, ao julgar o Tema 1.051 dos recursos repetitivos, a Segunda Seção estabeleceu que, para o fim de submissão aos efeitos da recuperação, considera-se que a existência do crédito é determinada pela data em que ocorreu o seu fato gerador.

Origem das obrigações é o contrato

Em relação à regulamentação legal, a relatora apontou que estão submetidos à recuperação do devedor todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos, de acordo com o artigo 49 da Lei 11.101/2005. Em consequência, não são submetidos aos efeitos do processo os créditos cujos fatos geradores ocorreram após a data em que o devedor ingressou com o pedido de recuperação.

No caso dos autos, Nancy Andrighi ponderou que a situação de pendência que perdura até a data de vencimento das operações no contrato a termo não autoriza concluir que o fato que dá origem à obrigação de pagar a quantia apurada seja outro que não a própria contratação.

"A obrigação de pagar imputada à recorrida não pode ser considerada constituída apenas na data prevista para liquidação das operações, haja vista que a existência do crédito correlato tem como fonte direta o negócio jurídico travado entre as partes contratantes", sublinhou a ministra.

Ao manter o acórdão do TJSP, a relatora enfatizou que, se a forma como as partes irão suportar os efeitos das operações está pactuada desde a data da celebração, e se a produção desses efeitos não depende da prática de nenhum outro ato, "é impositivo reconhecer que a origem, a fonte, o fato gerador das correspondentes obrigações é o próprio contrato, cuja eficácia plena se manifesta desde a assinatura".

RECURSO ESPECIAL Nº 1.924.161 - SP (2021/0054416-7)
RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : BANCO DO BRASIL SA
ADVOGADOS : CRISTIANO KINCHESCKI - DF034951
KARINE GONÇALVES SCARANO - SP258005
RECORRIDO : FERTILIZANTES HERINGER S.A. - EM RECUPERACAO JUDICIAL
OUTRO NOME : FERTILIZANTES HERINGER S.A
ADVOGADOS : JÚLIO KAHAN MANDEL - SP128331
PAULO CEZAR SIMÕES CALHEIROS - SP242665
INTERES. : ORESTE NESTOR DE SOUZA LASPRO - ADMINISTRADOR
ADVOGADO : ORESTE NESTOR DE SOUZA LASPRO - SP098628
EMENTA
RECURSO ESPECIAL. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. IMPUGNAÇÃO DE CRÉDITO.
NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. CONTRATO A
TERMO DE MOEDA. NON-DELIVERABLE FORWARD. DISCUSSÃO ACERCA DA
SUJEIÇÃO DOS CRÉDITOS DELE DECORRENTES AO PLANO DE
SOERGUIMENTO. ART. 49 DA LEI 11.101/05. FATO GERADOR ANTERIOR À
DATA DO PEDIDO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL. CONCURSALIDADE.
AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO ESPECÍFICA AOS FUNDAMENTOS DO ACÓRDÃO
RECORRIDO. SÚMULA 283/STF. REEXAME DE FATOS E PROVAS. SÚMULA
7/STJ.
1. Impugnação de crédito apresentada em 10/10/2019. Recurso especial
interposto em 1/10/2020. Autos encaminhados à Relatora em 9/3/2021.
2. O propósito recursal, além de averiguar a ocorrência de negativa de
prestação jurisdicional, é definir se créditos decorrentes de contratos a
termo de moeda (non-deliverable forward) submetem-se aos efeitos da
recuperação judicial do devedor na hipótese de seus vencimentos ocorrerem
após o deferimento do pedido de soerguimento.
3. Devidamente analisadas e discutidas as questões deduzidas pelas partes,
não há que se cogitar de negativa de prestação jurisdicional, ainda que o
resultado do julgamento contrarie os interesses do recorrente.
4. De acordo com a norma do art. 49, caput, da Lei 11.101/05, não se
submetem aos efeitos do processo de soerguimento aqueles credores cujas
obrigações foram constituídas após a data em que o devedor ingressou com
o pedido de recuperação judicial.
5. O contrato a termo de moeda, espécie de instrumento derivativo,
possibilita proteção de riscos de mercado decorrentes da variação cambial.
Por meio dele, assume-se a obrigação de pagar a quantia correspondente à
diferença resultante entre a taxa de câmbio contratada e a taxa de mercado
da data futura estabelecida na avença.
6. Os contratos derivativos, de modo geral, classificam-se como contratos
aleatórios, firmados com a finalidade precípua de expor as partes à
alternativa recíproca de ganho ou perda, de acordo com a ocorrência de
evento futuro e incerto. Doutrina.
7. A existência do crédito está diretamente ligada à relação jurídica
estabelecida entre credor e devedor, devendo-se levar em conta, para sua
aferição, a ocorrência do respectivo fato gerador, isto é, a data da fonte da
obrigação. Precedente qualificado. Tema repetitivo n. 1.051.
8. A fonte (fato gerador) da obrigação de pagar a quantia que vier a ser
liquidada na data do vencimento do contrato a termo de moeda é o próprio
contrato firmado com a instituição bancária.
9. A oscilação do parâmetro financeiro (taxa de câmbio) constitui evento
previsto e traduz risco deliberadamente assumido pelas partes, não sendo
ela, todavia, a gênese da respectiva obrigação.
10. Ademais, excetuadas as hipóteses de extraconcursalidade
expressamente previstas na Lei 11.101/05, a não sujeição dos créditos
posteriores ao pedido de soerguimento ao processo recuperacional tem
como objetivo incentivar que terceiros, apesar da condição de crise
enfrentada pela sociedade empresária, venham (ou continuem) a manter
relações negociais com esta, conferindo, assim, efetividade ao princípio da
preservação da empresa e funcionando como elemento fundamental à
continuidade das atividades, à manutenção dos empregos e à satisfação dos
interesses dos credores. Nesse passo, como as operações em questão, uma
vez que contratadas antes do pedido de soerguimento, não contribuem com
o reerguimento econômico da recorrida, o crédito apurado na data da
liquidação deve submeter-se aos efeitos do plano.
11. Por derradeiro, no que concerne aos arts. 193 e 194 da Lei 11.101/05,
apontados como violados pelo recorrente, dessume-se que não houve
impugnação específica aos fundamentos utilizados pelo aresto impugnado
quanto à sua não incidência na espécie.
RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Terceira
Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas
taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, negar provimento ao recurso
especial nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a) Relator(a). Os Srs. Ministros Paulo de
Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva e Marco Aurélio Bellizze votaram com a Sra.
Ministra Relatora.
Impedido o Sr. Ministro Moura Ribeiro.
Dr. CRISTIANO KINCHESCKI, pela parte RECORRENTE: BANCO DO BRASIL SA
Brasília (DF), 08 de junho de 2021(Data do Julgamento)

Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça

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