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STJ fixa honorários em impugnação de crédito em recuperação judicial a partir do valor da causa

Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça

A partir da vigência do Código de Processo Civil de 2015, o critério equitativo para a fixação de honorários sucumbenciais só pode ser adotado no julgamento de incidentes de impugnação de crédito, em processos de recuperação judicial, quando a causa tenha valor inestimável ou o proveito econômico seja irrisório.

Nos demais casos – por exemplo, quando o valor da causa está claramente definido –, o critério a ser utilizado para a fixação dos honorários é o previsto no parágrafo 2º do artigo 85 do CPC/2015.

A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu esse entendimento ao dar provimento ao recurso de advogados que contestaram a fixação de honorários em R$ 2 mil após o julgamento de impugnação ajuizada pela parte adversária para excluir R$ 3,9 milhões em créditos dos efeitos da recuperação judicial da empresa defendida por eles. O colegiado arbitrou os honorários em 10% do valor atualizado da causa.

O Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) negou o pedido dos advogados para que o valor da causa – R$ 3,9 milhões – fosse usado como parâmetro dos honorários, por entender que a contestação da impugnação era uma demanda de baixa complexidade, e aplicou a regra prevista no parágrafo 8º do artigo 85 do CPC/2015 para determinar os honorários.

Indicação expressa

Ao STJ, os advogados alegaram que a regra seguida pelo tribunal paranaense somente pode ser admitida quando não for possível a mensuração do proveito econômico, e que, no caso concreto, o valor foi indicado de forma expressa.

Segundo o relator do recurso, ministro Marco Aurélio Bellizze, os advogados têm razão ao afirmar que, sob as regras do atual CPC, o critério equitativo não pode ser utilizado para o arbitramento de honorários sobre a impugnação de crédito na recuperação judicial.

Ele destacou que recente julgamento da Terceira Turma concluiu pela possibilidade da utilização do critério equitativo em casos semelhantes, mas o entendimento firmado foi específico para as hipóteses regidas pelo CPC/1973.

O ministro citou outro julgamento – dessa vez da Segunda Seção –, de fevereiro de 2019, no qual o colegiado reconheceu que o CPC/2015 introduziu três vetores interpretativos para assegurar objetividade à fixação de honorários advocatícios sucumbenciais, a fim de incrementar a segurança jurídica e a previsibilidade das decisões judiciais.

Critérios objetivos

"Entre esses novos vetores, tem destaque especial, para o caso dos autos, a substancial redução das hipóteses de fixação por equidade, além da introdução de uma preferência legal para fixação da base de cálculo dos honorários advocatícios sucumbenciais", explicou Bellizze.

De acordo com o relator, pelas regras do atual CPC, as hipóteses de aplicação do critério equitativo ficaram restritas àqueles casos em que seja inestimável ou irrisório o proveito econômico, ou ainda quando o valor da causa for muito baixo, desde que não seja possível o cálculo de percentual sobre o valor da condenação, o proveito econômico obtido ou o valor atualizado da causa.

"A atribuição de valor à causa, por sua vez, ganha relevância inegável no novo contexto legislativo, o que impõe às partes maior responsabilidade com sua declaração na propositura da ação ou do incidente, bem como com as respectivas impugnações ao valor da causa, que, por vezes, são negligenciadas", destacou Bellizze.

Efeito inestimável

O ministro ressaltou que a parte recorrida no recurso especial buscou a exclusão de R$ 3,9 milhões dos efeitos da recuperação judicial, pedido que foi rejeitado integralmente e produziu efeitos significativos na recuperação.

"O incidente teve como único objetivo verificar se o crédito devia ou não ser submetido aos efeitos da recuperação judicial, de modo que o proveito econômico direto não é mensurável. Todavia, o apontamento do valor atribuído à causa é certo e determinado, devendo este ser o critério utilizado, nos termos preconizados pelo atual sistema processual", afirmou Bellizze.

Para o relator, "o valor elevado utilizado para atribuição ao valor da causa estampa a relevância econômica que se atribuiu à demanda e, por conseguinte, o elevado risco em que se imbuiu a atividade laborativa do advogado, o que acaba sendo refletido nos honorários sucumbenciais".

Marco Aurélio Bellizze concluiu no sentido de que "essa é a premissa que foi incorporada ao atual sistema processual de honorários advocatícios e que deve ser observada em todas as demandas, especialmente naquelas de inegável cunho econômico".

RECURSO ESPECIAL Nº 1.821.865 - PR (2019/0171699-9)
RELATOR : MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE
RECORRENTE : DULAC MULLER ADVOGADOS S/S
ADVOGADO : DANIEL BURCHARDT PICCOLI E OUTRO(S) - PR078729
RECORRENTE : AGROPECUARIA SIMBAL LTDA
RECORRENTE : DAROM MÓVEIS LTDA
RECORRENTE : ELDORADO AGRICULTURA E PARTICIPACOES SOCIAIS LTDA
RECORRENTE : SIMBAL PR INDUSTRIA DE MOVEIS E COLCHOES LTDA
RECORRENTE : SIMBAL SP INDUSTRIA DE MOVEIS E COLCHOES LTDA
ADVOGADOS : JÚLIO KAHAN MANDEL - SP128331
PAULO CEZAR SIMÕES CALHEIROS E OUTRO(S) - SP242665
VICTOR RIBEIRO CARDOSO DE MENEZES - SP243324
RECORRIDO : CHINA CONSTRUCTION BANK (BRASIL) BANCO MULTIPLO S/A
ADVOGADOS : AUGUSTO OTAVIO STERN E OUTRO(S) - RS010510
ANDRE VIEIRA STERN - RS067257
INTERES. : SEBASTIÃO DA SILVA FERREIRA
ADVOGADO : SEBASTIÃO DA SILVA FERREIRA (EM CAUSA PRÓPRIA) - PR011551
EMENTA
RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. INCIDENTE DE
IMPUGNAÇÃO DE CRÉDITO. IMPROCEDÊNCIA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
SUCUMBENCIAIS. FIXAÇÃO. LEGISLAÇÃO APLICÁVEL. CPC/2015. NORMA VIGENTE NA
DATA DA PROPOSITURA DO INCIDENTE. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. CRITÉRIO
EQUITATIVO AFASTADO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
1. O recurso especial debate a aplicação do critério equitativo para fixação de honorários
advocatícios de sucumbência no julgamento de incidente de impugnação de crédito em
processo de recuperação judicial, diante das regras do atual Código de Processo Civil.
2. O novo Código de Processo Civil introduziu, na disciplina da fixação dos honorários
advocatícios sucumbenciais, ordem decrescente de preferência de critérios para fixação da
base de cálculo dos honorários, na qual a subsunção do caso concreto a uma das hipóteses
legais prévias impede o avanço para a categoria seguinte.
3. As alterações reduzem a subjetividade do julgador e incrementa a responsabilidade das
partes com a atribuição de valor à causa, ao restringir as hipóteses de cabimento do critério
de fixação por equidade, restritas agora às causas: em que o proveito econômico for
inestimável ou irrisório ou, ainda, quando o valor da causa for muito baixo (art. 85, § 8º).
4. Embora a improcedência de incidente de impugnação de crédito em processos concursais
(recuperacional ou falimentar) não resulte, necessariamente, em exoneração da obrigação
de pagamento pelo devedor, é inegável a existência de valor econômico do resultado da
disputa.
5. No caso concreto, o incidente teve como único objetivo verificar se o crédito devia ou não
ser submetido aos efeitos da recuperação judicial, de modo que o proveito econômico direto
não é mensurável. Todavia, o apontamento do valor atribuído à causa é certo e determinado,
devendo este ser o critério utilizado, nos termos preconizados pelo atual sistema processual.
6. Recurso especial provido.
ACÓRDÃO
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam
os Ministros da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, dar
provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator

Os Srs. Ministros Moura Ribeiro (Presidente), Nancy Andrighi, Paulo de Tarso
Sanseverino e Ricardo Villas Bôas Cueva votaram com o Sr. Ministro Relator.
Brasília, 24 de setembro de 2019 (data do julgamento).
MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Relator

Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça

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