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Ecos de "Tropa de Elite"

Aborda o sucesso do filme que retratou a polícia como combatente do crime.

Direito Penal | 01/fev/2008

Sem dúvida alguma, “Tropa de Elite” foi um dos filmes mais significativos da história brasileira. Ele conseguiu demonstrar, de forma bastante crua, o que a sociedade brasileira esperava há tempos: existem “pessoas boas” e “pessoas más”, das quais, no contexto criminal, as primeiras são policiais e as últimas são bandidos. Não há meio termo. Alguém que pertença a qualquer agrupamento policial e esteja envolvido em crimes, simplesmente não pode ser chamado de policial. É um criminoso. Ponto final.

Talvez, mais importante que o filme em si, seja a extraordinária reação do público. Milhões de pessoas a ele assistiram e aclamaram. Foram raríssimas as opiniões dissonantes. Impressiona o fato de que os bordões do “Capitão Nascimento” tenham-se tornado motivo para séries cômicas e até para brincadeiras de crianças. O público amou o Bope e seu líder, mesmo assistindo a cruéis cenas de tortura.

Dizem que esse filme iniciou um grande debate. Discordo. De certa forma, ele acabou com qualquer debate. A população, ao aplaudir de maneira maciça o filme, expressou-se também politicamente: a Polícia tem o seu apoio na luta contra o tráfico de drogas. A população está tão cansada da violência produzida pelo tráfico que chegou a considerar aceitável a violência produzida pela Polícia.

Até então, a população brasileira, bastante conservadora em vários temas, como tráfico de drogas e aborto, não conseguia se ver no cinema. É impressionante perceber que a quase totalidade dos filmes, das novelas e das séries nacionais focalizam basicamente o ponto de vista do criminoso[1], caracterizando geralmente o policial como corrupto e inepto. Tudo isso contribuiu decisivamente para a criação de uma grande antipatia da população com relação aos policiais. Grotescamente, uma pequena parcela da corporação tornou-se o símbolo dela toda.

Chega a ser gritante a diferença com a indústria cultural norte-americana. Lá pululam filmes e seriados cujo foco é a Polícia e a Justiça. Porém, muito mais raros, são aqueles que idealizam o criminoso, fato bastante comum por aqui. Para quem assiste à TV a cabo, os nomes já são bem conhecidos: “Justice”, “Cold Case”, “CSI”, “Law and Order”, “The Shield”, etc.

A população norte-americana, tal qual a brasileira, quer o combate ao crime, quer, sim, “lei e ordem” (não a qualquer custo, é claro). A diferença é que, em nosso país, sempre predominou nos meios intelectuais a concepção de que os criminosos são “vítimas da sociedade” e que devem ser protegidos de sua sanha vingativa. Além disso, os policiais seriam os representantes dessa “sociedade opressora”. É a verdadeira “luta do bem contra o mal”, porém, com posições invertidas.

Pois bem. Parece que o barulho ensurdecedor de “Tropa de Elite” não está ecoando no vazio. A “Fox International Channels” está produzindo no Brasil a mini-série “9mm”, que conta o cotidiano de uma divisão de homicídios de uma delegacia em São Paulo. As inspirações óbvias são as séries já citadas, com a notável diferença de que será retratada a realidade brasileira.

Costuma-se subestimar a importância da cultura e superestimar a importância de outras categorias, como a economia e a política. Porém, dificilmente algo é feito em outras áreas se está contrário à cultura dominante na mídia. Boa parte das decisões tomadas nos nível pessoal, político e administrativo simplesmente refletem os valores divulgados pela indústria cultural. De certa forma, para combater de fato o crime, é preciso parar de combater aqueles que o combatem. Não apenas os policiais, mas também os juízes, os promotores, os fiscais e outros, que, cotidianamente realizam um trabalho honesto e, apesar de todas as dificuldades, eficiente.

Por tudo isso, a mini-série é muito bem-vinda. Oxalá os ecos de “Tropa de Elite” continuem a propagar-se e a população possa ver cada vez mais na tela aquilo em que ela acredita: existem pessoas honestas que, com todas as suas falhas próprias do ser humano, combatem, de forma abnegada o crime e que, mais importante, sabem diferenciar o certo do errado.


Referências bibliográficas 


[1] Para a compreensão do apóio dos intelectuais ao crime, é essencial o excelente artigo de Olavo de Carvalho: “Bandidos e Letrados”.

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