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O protesto Coringa

O Coringa se auto-definia como um cão que perseguia carros: ele não saberia o que fazer se realmente alcançasse um. Foi exatamente assim que devem ter se sentido os manifestantes quando invadiram o Congresso Nacional: “ok, conseguimos chegar até aqui, e agora?”.

Direito Civil | 18/jun/2013

Não são apenas os partidos radicais de esquerda como PSTU e PCO que estão se passando por criadores dos protestos abstratos que se instalaram nesse início de semana em todo o Brasil. O Grupo Anonymous, originalmente formado por hackers anarquistas que têm como símbolo Guy Fawkes, o terrorista do filme “V de Vingança”, também tenta aliar a sua imagem às manifestações. Porém, o protesto mais parece ter a cara do Coringa, o vilão de “Batman – o Cavaleiro das Trevas” do que de Guy Fawkes. Pra quem não se lembra, o Coringa se auto-definia como um cão que perseguia carros: ele não saberia o que fazer se realmente alcançasse um.

Foi exatamente assim que devem ter se sentido os manifestantes quando invadiram o Congresso Nacional: “ok, conseguimos chegar até aqui, e agora?!” Esse é o problema de um protesto abstrato, desfocado, sem prioridades. Ele até que começou em São Paulo com um objetivo bem definido, reduzir as tarifas do transporte público, liderado pelo Movimento Passe Livre, porém, virou um manifesto contra a gastança na Copa do Mundo, 6 anos após a escolha do Brasil como sede ter sido feita e exatamente no dia que se iniciava o torneio-teste, a Copa das Confederações. Nada mais oportunista.

Os protestos são constitucionalmente aceitos, óbvio, e estão previstos no art. 5º, no inciso XVI que descreve: “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”. Ninguém é contra o direito de manifestação, mas a legitimidade de algumas delas é questionável.

É o caso dos protestos de hoje. O MPL perdeu as rédeas da manifestação pela melhoria do transporte público e as manifestações se alastraram pelo país com as reivindicações mais absurdas possíveis, desde a melhora da qualidade da educação, da saúde, da segurança – como se precisasse um protesto pra sabermos que melhorar a vida das pessoas é uma reivindicação do brasileiro -, e até mesmo o fim da corrupção – sim, o político vai ver o protesto e automaticamente vai se abster de cometer as falcatruas que comete.

Oras,um protesto contra tudo é também um protesto contra nada. Nada tira tanto a legitimidade de uma manifestação quanto ela não ter foco, não se saber exatamente pelo que se está lutando. Protestar porque está na moda torna a reivindicação passageira. No mês que vem ninguém nem lembra mais. A única função de um protesto é chamar atenção para um ato ilícito, para um abuso, um caso concreto, e informar que uma parcela da população é contra aquilo, mas e se ele tem 10 reivindicações totalmente distintas, sem relação uma com as outras, algumas tão abstratas quanto a paz mundial, qual então é a razão de ele existir?! Virou um "protesto pelo direito de protestar".

 Manifestações sem uma razão simples e única carecem da legitimidade necessária pra fazer efeito e ser lembrada. Protestar porque os outros estão protestando ridiculariza o próprio movimento. O Protesto Coringa – que também é aquela carta que serve pra tudo –, assim como o personagem, é um cão que nunca irá alcançar o carro porque nem mesmo sabe qual carro quer.

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