Aborda o sucesso do filme que retratou a polícia como combatente do crime.
Por Alexandre Magno Fernandes Moreira
Sem dúvida alguma, “Tropa de Elite” foi um dos filmes mais significativos da história brasileira. Ele conseguiu demonstrar, de forma bastante crua, o que a sociedade brasileira esperava há tempos: existem “pessoas boas” e “pessoas más”, das quais, no contexto criminal, as primeiras são policiais e as últimas são bandidos. Não há meio termo. Alguém que pertença a qualquer agrupamento policial e esteja envolvido em crimes, simplesmente não pode ser chamado de policial. É um criminoso. Ponto final.
Talvez, mais importante que o filme em si, seja a extraordinária reação do público. Milhões de pessoas a ele assistiram e aclamaram. Foram raríssimas as opiniões dissonantes. Impressiona o fato de que os bordões do “Capitão Nascimento” tenham-se tornado motivo para séries cômicas e até para brincadeiras de crianças. O público amou o Bope e seu líder, mesmo assistindo a cruéis cenas de tortura.
Dizem que esse filme iniciou um grande debate. Discordo. De certa forma, ele acabou com qualquer debate. A população, ao aplaudir de maneira maciça o filme, expressou-se também politicamente: a Polícia tem o seu apoio na luta contra o tráfico de drogas. A população está tão cansada da violência produzida pelo tráfico que chegou a considerar aceitável a violência produzida pela Polícia.
Até então, a população brasileira, bastante conservadora em vários temas, como tráfico de drogas e aborto, não conseguia se ver no cinema. É impressionante perceber que a quase totalidade dos filmes, das novelas e das séries nacionais focalizam basicamente o ponto de vista do criminoso[1], caracterizando geralmente o policial como corrupto e inepto. Tudo isso contribuiu decisivamente para a criação de uma grande antipatia da população com relação aos policiais. Grotescamente, uma pequena parcela da corporação tornou-se o símbolo dela toda.
Chega a ser gritante a diferença com a indústria cultural norte-americana. Lá pululam filmes e seriados cujo foco é a Polícia e a Justiça. Porém, muito mais raros, são aqueles que idealizam o criminoso, fato bastante comum por aqui. Para quem assiste à TV a cabo, os nomes já são bem conhecidos: “Justice”, “Cold Case”, “CSI”, “Law and Order”, “The Shield”, etc.
A população norte-americana, tal qual a brasileira, quer o combate ao crime, quer, sim, “lei e ordem” (não a qualquer custo, é claro). A diferença é que, em nosso país, sempre predominou nos meios intelectuais a concepção de que os criminosos são “vítimas da sociedade” e que devem ser protegidos de sua sanha vingativa. Além disso, os policiais seriam os representantes dessa “sociedade opressora”. É a verdadeira “luta do bem contra o mal”, porém, com posições invertidas.
Pois bem. Parece que o barulho ensurdecedor de “Tropa de Elite” não está ecoando no vazio. A “Fox International Channels” está produzindo no Brasil a mini-série “9mm”, que conta o cotidiano de uma divisão de homicídios de uma delegacia em São Paulo. As inspirações óbvias são as séries já citadas, com a notável diferença de que será retratada a realidade brasileira.
Costuma-se subestimar a importância da cultura e superestimar a importância de outras categorias, como a economia e a política. Porém, dificilmente algo é feito em outras áreas se está contrário à cultura dominante na mídia. Boa parte das decisões tomadas nos nível pessoal, político e administrativo simplesmente refletem os valores divulgados pela indústria cultural. De certa forma, para combater de fato o crime, é preciso parar de combater aqueles que o combatem. Não apenas os policiais, mas também os juízes, os promotores, os fiscais e outros, que, cotidianamente realizam um trabalho honesto e, apesar de todas as dificuldades, eficiente.
Por tudo isso, a mini-série é muito bem-vinda. Oxalá os ecos de “Tropa de Elite” continuem a propagar-se e a população possa ver cada vez mais na tela aquilo em que ela acredita: existem pessoas honestas que, com todas as suas falhas próprias do ser humano, combatem, de forma abnegada o crime e que, mais importante, sabem diferenciar o certo do errado.
Referências bibliográficas
[1] Para a compreensão do apóio dos intelectuais ao crime, é essencial o excelente artigo de Olavo de Carvalho: “Bandidos e Letrados”.
26/nov/2007 por Equipe DireitoNet. Retrata algumas faces da segurança pública que, por vezes, se mistura e contribui à criminalidade.
Da acareação no Processo Penal
Casamento civil e união homoafetiva
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