Alienação política


16/fev/2006

Aborda a questão da alienação política como prática, principalmente na sociedade brasileira, voltada ao consumismo, ao futebol, ao carnaval e à despreocupação com relação aos problemas sociais, que flagelam a nossa nação.

Por Inez Geralda da Silva

No presente trabalho procuraremos abordar a questão da alienação política como prática, principalmente na sociedade brasileira, voltada ao consumismo, ao futebol, ao carnaval e à despreocupação com relação aos problemas sociais, que flagelam a nossa nação. Resgataremos os pensamentos dos filósofos Platão, Aristóteles, Jean-Jacques Rousseau e Karl Marx sobre o referido tema, procurando fazer analogias dos ideais pregados por estes, situando-os com o comportamento da população brasileira.

Apontaremos a concepção de cidadania e sua interação com a política, mostrando a importância da participação popular nos rumos da democracia. A alienação como um fenômeno nos leva à não percepção dos acontecimentos, nos quais estamos inseridos. A superação deste estado depende da aceitação desta condição e conseqüentemente, da vontade de sair e mudar, sendo sujeito da situação, respondendo, assim, pelas ações referentes à sociedade, ao meio no qual estamos inseridos, nos sentindo parte integrante e de grande responsabilidade no processo político.

A mudança do estado alienante para o de participação responsável, ativa e consciente dá-se na coletividade e na educação voltada a atender a estes anseios. Trata-se de um processo longo, mas de grande valia, se realmente queremos uma sociedade democrática, formada portanto, de cidadãos capacitados em desempenhar suas funções como bons eleitores.

A alienação é um fenômeno inerente ao ser humano, uma vez que o mesmo influencia e é influenciado pelo meio. Há quem a defina como a perda da própria identidade, dependência, falta de autonomia, ocasionando a apatia, a indiferença, a passividade, a falta de interesse. O homem cria instituições, leis, direitos etc., porém, não se sente criador e sim, criatura. Tomamos como exemplo a questão política.

De acordo com os pensadores Platão e Aristóteles, o homem é um animal político e esta concepção parte do pressuposto de que o verdadeiro cidadão é aquele que efetivamente participa da vida em sociedade; um ser social é um ser político, pois a política nada mais é que condição do bem comum. Para estes, quem não vive em sociedade, ou é um Deus, ou é uma besta. Desta maneira, nos deixam evidente a necessidade do homem atuar como sujeito ativo no processo de formação da polis.

Portanto, alienação política vem a ser a não interação do ser humano nas ações que norteiam o contexto político e social, sendo que, muitos não se reconhecem como alienados, por fazerem parte de uma sociedade dogmática. A condição de superação deste fenômeno, segundo estes filósofos, seria a educação, visando despertar nos cidadãos o senso de responsabilidade e justiça, estritamente ligadas a ciência política da época. A busca pela reflexão na construção de uma sociedade justa era o objetivo principal, criando um Estado ideal.

A idéia de governante era questão essencial, sendo a sabedoria deste, considerada a maior das virtudes. Um governante deveria ser um filósofo. Acreditavam na idéia de eqüidade, uma vez que os mais fortes seriam unidos aos mais fracos, como na tecelagem, onde os fios mais fortes se entrelaçariam aos mais fracos e, desta maneira, cada um contribuiria com o coletivo, de acordo com suas aptidões, regidos pela ética.

Em outro momento histórico, o filósofo Jean-Jacques Rousseau admite a idéia de alienação, contudo, de outra maneira. Em sua obra “Do Contrato Social”, este escreve que “O homem nasce livre, e por toda parte encontra-se a ferros.”

Para se libertar desses ferros, surge a idéia de um pacto social, no qual a condição de liberdade seria legitimada através da alienação total dos bens e da liberdade em prol da comunidade. Esta alienação não seria subordinada a um rei (idéia não concebida), mas a cada um, preservando-se a igualdade e a liberdade, formando um corpo político, de homens considerados coletivamente, participativos, onde a vontade geral seria indestrutível.

O pacto idealizado por Rousseau encontra semelhança com as idéias de Karl Marx, filósofo esse considerado radical por seus pensamentos revolucionários. Sabe-se que há um intervalo de um século dos ideais de um para outro. Para o último, a alienação era fruto do sistema capitalista de produção. A liberdade e a igualdade prometida a todos os homens revelam-se uma ilusão da “emancipação política”, na época em que a questão do proletariado surge em toda a sua força. A seu ver, a verdadeira emancipação política só poderia se realizar no âmbito da emancipação social, isto é, na revolução do proletariado. Haveria um período de transição, onde o Estado ainda existiria (o Socialismo), no qual o proletariado seria o ditador. Após esse período, o Estado despótico desapareceria, dando lugar a uma sociedade sem classes (o Comunismo), onde não mais existiria alienação.

Diante disso, na atualidade nos deparamos com a idéia de política totalmente divergente daquela idealizada pelos grandes pensadores mencionados acima. Principalmente no caso brasileiro, onde esta é vista atrelada à corrupção, beneficiando apenas uma minoria, em seu individualismo, nepotismo, falta de ética e de moral, sem compromisso com a sociedade e outros fatores que fazem com que as pessoas se afastem, gerando um círculo vicioso e a perpetuação do poder nas mãos da mesma minoria em detrimento de uma maioria marginalizada.

O país já vivenciou momentos de luta pelas liberdades civis, tendo seu auge na década de 80, todavia, a participação popular seria essencial para a garantia dessas liberdades e para a construção da tão sonhada democracia. No entanto, esta participação foi irrisória, mostrando que o povo continuava omisso, deixando as decisões ao arbítrio de alguns, escolhidos pela própria sociedade, centralizando o poder executivo.

O Estado repressor do período militar contrasta com o novo Estado, o paternalista, criador do bolsa-escola, bolsa-família e outros “benefícios”, caracterizando-se como assistencialista ao extremo, quando se deveria atender a necessidades primordiais, como as sociais. Enquanto isto, o brasileiro se aliena com o futebol, cerveja, carnaval, Big Brother Brasil etc., fazendo com que a cultura se tornasse mais orientada para o Estado do que para a representação.

Persistem e agravam-se os problemas sociais; as desigualdades aumentam, o desprestígio dos políticos perante a população cresce. Com isto, o cidadão eleitor passa a buscar um líder carismático e salvador da pátria, fazendo com que esta omissão retarde o processo democrático, que caminha em marcha lenta.

Diante deste quadro, o período eleitoral deixa de ser um momento de reflexão e discussão para tornar-se um espetacular leilão de votos (quem dá mais?) em troca de cestas básicas e promessas de favores. Como bem lembra Carvalho (2004, p.224), “eleitores desprezam políticos, mas continuam votando neles na esperança de benefícios pessoais”.

Como reflexo destas questões, o cidadão politicamente alienado age instintivamente, pois está envolto em um sistema comprometido em corroborar a conjuntura existente. A passividade diante dos acontecimentos histórico-políticos nos faz perceber o quanto a alienação política condiciona o indivíduo à não participação, pela falta de informação, de leitura, de vontade, de interesse, pela decepção com os políticos, aliado ao consumismo, afastado de preocupações com a política e com os problemas coletivos.

Diante do exposto acima nos perguntamos se somos cúmplices ou vítimas dos fatos abordados. Analisando-os, percebemos que a ação coletiva seria um importante caminho para superar esta condição. Sabemos que não encontraremos fórmulas mágicas capazes de solucionar nossos problemas, porém, como os filósofos Platão e Aristóteles, depositamos na educação a nossa maior esperança para superar esses desafios e então, buscarmos construir uma sociedade democrática, capaz de dissolver as mazelas sustentadas pela alienação.

Para tanto, sabemos que necessário seria rever a nossa educação em todos os segmentos, ou seja, que esta contribua para que a condição de alienação seja superada, através de ações que venham a politizar os cidadãos, onde os fatos não seriam somente relatados e rechaçados, mas também, discutidos com compromisso e, principalmente, com a realidade, delineando assim, um caráter de maior integração e de responsabilidade de todos.

No ano de Copa do Mundo, antecedida pelo espetáculo carnavalesco brasileiro, como abordar a questão política, em meio a questão “bolística”? Como discutir eleição para governadores, senadores e deputados estaduais e federais? A resposta não é fácil, pois o brasileiro é apaixonado pelo futebol. Não se trata de sucumbir uma em detrimento de outra, porém, não esquecer que o amor pelo Brasil deve ser maior que pelo futebol. A Copa do Mundo é um momento esperado durante quatro anos, principalmente devido ao favoritismo da seleção brasileira; cada brasileiro se sente mais patriota, sente orgulho em mostrar a bandeira, vestir verde e amarelo e demonstrar seu amor pela pátria. Isso é reflexo de um povo que tem poucos motivos para comemorar e nesse momento, consegue sentir o gosto do valor e da vitória, desde que a seleção traga a taça para casa.

Por que não demonstrar um pouco deste amor no momento da escolha de seus candidatos no período eleitoral? Estes são os jogadores que decidirão os rumos da nação durante os próximos quatro anos e suas decisões refletirão diretamente sobre nós e serão de grande importância. Acabada a euforia da Copa, o brasileiro tende a voltar para seu anonimato, esperando a próxima; essa condição é muito desoladora, pois a felicidade talvez venha de quatro em quatro anos, durante apenas um mês.

É necessário resgatar o valor do voto como mecanismo de manifestação política e o momento eleitoral deve ser encarado com seriedade por todos, nos mais variados ambientes. Ser alienado não é condição permanente. Com um pouco de boa vontade e coragem para sair do comodismo, é possível reverter esse quadro. Ser cidadão é antes de tudo estar sujeito a aprender a mudar, não desistir e não esperar vantagens individuais no final, mas acima de tudo, acreditar e persistir sempre.

Nesse intuito caberia a população fiscalizar, pressionar conscientemente, pois nós somos parte do todo e os maiores interessados, acreditamos que ser cidadão antes de tudo é ser político e ser político não significa fazer discursos no palanque, mas ser atuante e consciente, não apenas exercendo um direito, mas, sobretudo um dever para com a pátria. Com isso, buscar atingir a tão almejada mudança e o fim da alienação. Ser um verdadeiro brasileiro é muito mais que vibrar pelo futebol, pular carnaval, sobreviver com trezentos reais mensais. Devemos acreditar que, lançando as primeiras sementes, cultivando-as com responsabilidade, mesmo que em meio a tantos dissabores, podemos um dia colher bons frutos. Sabemos que isso pode levar muito tempo, porém é necessário descruzar os braços e fazer algo pela emancipação e pelo amadurecimento da democracia.



REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. A Política.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. UnB: Brasília, 2004.

CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2004.

CHAUÍ, Marilena. Filosofia. Ática: São Paulo, 1994.

PLATÃO. A Política.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. Nova Cultural: São Paulo,1999.

WEFFORT, Francisco C. Os clássicos da política. Ática: São Paulo, 2004.




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