STJ - AgRg no Ag 979167 / DF AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO 2007/0279943-1


02/out/2008

TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. AUXÍLIO CONDUÇÃO. IMPOSTO DE RENDA.
TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PRESCRIÇÃO. TERMO
INICIAL. PAGAMENTO INDEVIDO. ARTIGO 4º, DA LC 118/2005. DETERMINAÇÃO
DE APLICAÇÃO RETROATIVA. MAJORAÇÃO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
SÚMULA 07 DO STJ.
1. O princípio da irretroatividade implica a aplicação da LC
118/2005 aos pagamentos indevidos realizados após a sua vigência e
não às ações propostas após a mesma, tendo em vista que a referida
norma pertine à extinção da obrigação e não ao aspecto processual da
ação.
2. O advento da LC 118/05 e suas conseqüências sobre a prescrição,
do ponto de vista prático, implica dever a mesma ser contada da
seguinte forma: relativamente aos pagamentos efetuados a partir da
sua vigência (que ocorreu em 09.06.05), o prazo para a repetição do
indébito é de cinco a contar da data do pagamento; e relativamente
aos pagamentos anteriores, a prescrição obedece ao regime previsto
no sistema anterior, limitada, porém, ao prazo máximo de cinco anos
a contar da vigência da lei nova.
3. Isto porque a Corte Especial declarou a inconstitucionalidade da
expressão "observado, quanto ao art. 3º, o disposto no art. 106, I,
da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 - Código Tributário
Nacional", constante do artigo 4º, segunda parte, da Lei
Complementar 118/2005 (AI nos ERESP 644736/PE, Relator Ministro
Teori Albino Zavascki, julgado em 06.06.2007).
4. Deveras, a norma inserta no artigo 3º, da lei complementar em
tela, indubitavelmente, cria direito novo, não configurando lei
meramente interpretativa, cuja retroação é permitida, consoante
apregoa doutrina abalizada:
"Denominam-se leis interpretativas as que têm por objeto determinar,
em caso de dúvida, o sentido das leis existentes, sem introduzir
disposições novas. {nota: A questão da caracterização da lei
interpretativa tem sido objeto de não pequenas divergências, na
doutrina. Há a corrente que exige uma declaração expressa do próprio
legislador (ou do órgão de que emana a norma interpretativa),
afirmando ter a lei (ou a norma jurídica, que não se apresente como
lei) caráter interpretativo. Tal é o entendimento da AFFOLTER (Das
intertemporale Recht, vol. 22, System des deutschen bürgerlichen
Uebergangsrechts, 1903, pág. 185), julgando necessária uma
Auslegungsklausel, ao qual GABBA, que cita, nesse sentido, decisão
de tribunal de Parma, (...) Compreensão também de VESCOVI (Intorno
alla misura dello stipendio dovuto alle maestre insegnanti nelle
scuole elementari maschili, in Giurisprudenza italiana, 1904, I,I,
cols. 1191, 1204) e a que adere DUGUIT, para quem nunca se deve
presumir ter a lei caráter interpretativo - "os tribunais não podem
reconhecer esse caráter a uma disposição legal, senão nos casos em
que o legislador lho atribua expressamente" (Traité de droit
constitutionnel, 3a ed., vol. 2o, 1928, pág. 280). Com o mesmo
ponto de vista, o jurista pátrio PAULO DE LACERDA concede,
entretanto, que seria exagero exigir que a declaração seja inseri da
no corpo da própria lei não vendo motivo para desprezá-la se lançada
no preâmbulo, ou feita noutra lei.
Encarada a questão, do ponto de vista da lei interpretativa por
determinação legal, outra indagação, que se apresenta, é saber se,
manifestada a explícita declaração do legislador, dando caráter
interpretativo, à lei, esta se deve reputar, por isso,
interpretativa, sem possibilidade de análise, por ver se reúne
requisitos intrínsecos, autorizando uma tal consideração.
(...)
... SAVIGNY coloca a questão nos seus precisos termos, ensinando:
"trata-se unicamente de saber se o legislador fez, ou quis fazer uma
lei interpretativa, e, não, se na opinião do juiz essa interpretação
está conforme com a verdade" (System des heutigen romischen Rechts,
vol. 8o, 1849, pág. 513). Mas, não é possível dar coerência a
coisas, que são de si incoerentes, não se consegue conciliar o que é
inconciliável. E, desde que a chamada interpretação autêntica é
realmente incompatível com o conceito, com os requisitos da
verdadeira interpretação (v., supra, a nota 55 ao n° 67), não admira
que se procurem torcer as conseqüências inevitáveis, fatais de tese
forçada, evitando-se-lhes os perigos. Compreende-se, pois, que
muitos autores não aceitem o rigor dos efeitos da imprópria
interpretação. Há quem, como GABBA (Teoria delta retroattività delle
leggi, 3a ed., vol. 1o, 1891, pág. 29), que invoca MAILHER DE
CHASSAT (Traité de la rétroactivité des lois, vol. 1o, 1845, págs.
131 e 154), sendo seguido por LANDUCCI (Trattato
storico-teorico-pratico di diritto civile francese ed italiano,
versione ampliata del Corso di diritto civile francese, secondo il
metodo dello Zachariæ, di Aubry e Rau, vol. 1o e único, 1900, pág.
675) e DEGNI (L'interpretazione della legge, 2a ed., 1909, pág.
101), entenda que é de distinguir quando uma lei é declarada
interpretativa, mas encerra, ao lado de artigos que apenas
esclarecem, outros introduzido novidade, ou modificando dispositivos
da lei interpretada. PAULO DE LACERDA (loc. cit.) reconhece ao juiz
competência para verificar se a lei é, na verdade, interpretativa,
mas somente quando ela própria afirme que o é. LANDUCCI (nota 7 à
pág. 674 do vol. cit.) é de prudência manifesta: "Se o legislador
declarou interpretativa uma lei, deve-se, certo, negar tal caráter
somente em casos extremos, quando seja absurdo ligá-la com a lei
interpretada, quando nem mesmo se possa considerar a mais errada
interpretação imaginável. A lei interpretativa, pois, permanece tal,
ainda que errônea, mas, se de modo insuperável, que suplante a mais
aguda conciliação, contrastar com a lei interpretada, desmente a
própria declaração legislativa." Ademais, a doutrina do tema é
pacífica no sentido de que: "Pouco importa que o legislador, para
cobrir o atentado ao direito, que comete, dê à sua lei o caráter
interpretativo. É um ato de hipocrisia, que não pode cobrir uma
violação flagrante do direito" (Traité de droit constitutionnel, 3ª
ed., vol. 2º, 1928, págs. 274-275)." (Eduardo Espínola e Eduardo
Espínola Filho, in A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro,
Vol. I, 3a ed., págs. 294 a 296).
5. Consectariamente, em se tratando de pagamentos indevidos
efetuados antes da entrada em vigor da LC 118/05 (09.06.2005), o
prazo prescricional para o contribuinte pleitear a restituição do
indébito, nos casos dos tributos sujeitos a lançamento por
homologação, continua observando a cognominada tese dos cinco mais
cinco, desde que, na data da vigência da novel lei complementar,
sobejem, no máximo, cinco anos da contagem do lapso temporal (regra
que se coaduna com o disposto no artigo 2.028, do Código Civil de
2002, segundo o qual: "Serão os da lei anterior os prazos, quando
reduzidos por este Código, e se, na data de sua entrada em vigor, já
houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na lei
revogada.").
6. Por outro lado, ocorrido o pagamento antecipado do tributo após a
vigência da aludida norma jurídica, o dies a quo do prazo
prescricional para a repetição/compensação é a data do recolhimento
indevido.
7. In casu, as parcelas foram recolhidas antes do advento da Lei,
por isso que a tese é a consagração dos 5 anos de decadência da
homologação acrescido dos 5 anos de prescrição.
8. A Fazenda Pública, quando sucumbente, submete-se à fixação dos
honorários, não estando o juiz adstrito aos limites percentuais de
10% e 20%, podendo ser adotado como base de cálculo o valor dado à
causa ou à condenação, nos termos do artigo 20, § 4º, do CPC
(Precedentes: AgRg no AG 623659/RJ; AgRg no REsp 592430/MG; e AgRg
no REsp 587499/DF), como regra de eqüidade.
9. O reexame dos critérios fáticos, sopesados de forma eqüitativa e
levados em consideração para fixar os honorários advocatícios, nos
termos das disposições dos parágrafos 3º e 4º do artigo 20, do CPC,
em princípio, é inviável em sede de recurso especial, nos termos da
jurisprudência dominante desta Corte. Isto porque a discussão acerca
do quantum da verba honorária encontra-se no contexto
fático-probatório dos autos, o que obsta o revolvimento do valor
arbitrado nas instâncias ordinárias por este Superior Tribunal de
Justiça.
12.Destarte, a aferição acerca dos critérios norteadores da
apreciação eqüitativa do juiz para fixar os honorários advocatícios
demanda revolvimento da matéria fática, o que é defeso em sede de
recurso especial, em face do óbice erigido pela Súmula 7 do STJ.
13. Agravos regimentais desprovidos.

Tribunal STJ
Processo AgRg no Ag 979167 / DF AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO 2007/0279943-1
Fonte DJe 02/10/2008
Tópicos tributário, recurso especial, auxílio condução.

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