O Classicismo de Santo Tomás de Aquino


19/out/2002

Santo Tomás de Aquino é considerado um filósofo clássico, pois seu pensamento obedece às três notas características do classicismo.

Por Regina Ferretto D'Azevedo

1. O Classicismo em face do Romantismo

Santo Tomás de Aquino é considerado um filósofo clássico, pois seu pensamento obedece às três notas características do classicismo. A primeira delas é o predomínio da atenção ao diferencial sobre o que é comum, ou seja, respeita-se o diferente mais que o genérico; a Segunda nota é a intuição das hierarquias dominantes nas distintas formas da realidade que consiste em afirmar a variedade de valor entre os seres; e a terceira é o respeito à objetividade – conseqüência das duas anteriores -, sendo, portanto, a entrega humilde do filósofo ante a objetividade do real.

O romântico, por sua vez, opõe-se a todas essas características supra citadas, consequentemente prefere o genérico ao peculiar e considera que tudo tem o mesmo valor, não atingindo, assim, o mesmo grau de objetividade do clássico.


2. Santo Tomás e Aristóteles

Tanto Santo Tomás de Aquino como Aristóteles são considerados filósofos clássicos, entretanto, este último quando trata da realidade o faz com imperfeição, o mesmo acontece quando tenta traçar um conceito de Deus. Já Santo Tomás de Aquino é mais coerente em seu pensamento, pois admite o auxílio sobrenatural da revelação como complemento do saber humano.


3. Dificuldades da Ontologia

O problema ontológico consiste na tentativa de definir o que é o SER. Entretanto, o SER é um termo tão amplo que se refere a tudo, até a Deus. Não bastante, existem, ainda, diferenças entre os vários seres, as quais são características próprias de cada um. Essa amplitude do termo SER somada às particularidades pertinentes à cada SER fazem do problema ontológico um desafio ao intelecto humano.


4. A Analogia do Ser

O SER é um termo análogo – termo que designa objetos distintos, mas não totalmente diferentes -, como ensina Santo Tomás de Aquino; significa, então, que não é nem unívoco – termo que designa sempre a mesma coisa, pois possui sempre o mesmo significado (e.g. homem) -, nem equívoco – termo que possui duas ou mais significações completamente diversas entre si (e.g. macaco).

A história da filosofia, entretanto, mostra sistemas, em que uma ou outra posição é realizada. Os monistas, idealistas ou materialistas (românticos) acreditam na univocidade do SER – Parmênidews e Demócrito (Antiguidade); Descartes, Spinoza, Kant e Hegel (Idade Moderna) -; já os que acreditam não poder haver ciência alguma – Heráclito, os cépticos (Antiguidade); Hume e Bergson (Idade Moderna) – defendem a equivocidade do SER.

A teoria de que SER é análogo é inaugurada por Sócrates, aperfeiçoada por Platão e levada a sua mais alta forma por Aristóteles, o qual afirmou que existem diversas modalidades de SER, embora permaneça em todas elas a unidade do SER enquanto tal. É Santo Tomás de Aquino, todavia, que leva essa teoria à sua forma mais perfeita, afirmando que a realidade é um sistema de modos de SER, que permitem chegar ao conhecimento do individual, na base do comum específico e genérico.


5. O Argumento Ontológico

O problema fundamental de Deus é abordado por Santo Tomás de Aquino de forma diferenciada. Para seus antecessores Deus era algo que se conhecia imediatamente – termo esse que significa a ausência de intermediário entre quem conhece e o conhecido -, mais ainda, Deus seria conhecido por meio da intuição. Santo Anselmo é um grande exemplo dessa corrente, pois acreditava que sendo Deus algo maior do que todas as coisas deveria esse, então, existir ao mesmo tempo na realidade e na idéia.

Santo Tomás de Aquino não combate somente a idéia de que Deus é conhecido de forma imediata, mas também confronta diretamente a teoria de Santo Anselmo. Defende, pois, que essa teoria é falha por tornar homogêneos a idéia de Deus e o Deus realmente existente, isto é, Santo Anselmo confunde o ser idéia com o ser existência, aceitando ser o SER algo unívoco (conhecimento tipicamente romântico).

Apesar de combater o argumento de Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, por acreditar que não existe pensamento humano que não possua uma ponta de verdade, afirma que, mesmo sendo esse argumento falho ao tentar estabelecer a existência de Deus, é perfeito para designar a natureza de Deus, no qual a essência e a existência se confundem.


6. As Idéias e as Coisas

Outro problema que a filosofia grega propôs é o das relações entre as idéias e as coisas. Primeiramente se conhece algo quando determinamos sua essência, descobrimos sua idéia. Isso significa que nos apossamos das idéias no momento do ato de conhecer, mesmo não sabendo onde estas realmente se encontram.

Duas soluções são apresentadas na tentativa de localizar onde se encontram as idéias: a primeira afirma que as idéias estão nas próprias coisas (Aristóteles), a Segunda, que as idéias estão fora das coisas – ou em nenhuma parte (Platão), ou em alguma mente divina (Santo Agostinho).

Santo Tomás de Aquino, neste ponto, conjuga as duas soluções – a aristotélica e a platônico-agostiniana -, pois, para ele, as idéias estão, ao mesmo tempo, nas coisas e na mente de Deus.


7. Espírito de Objetividade

Na filosofia denominada aberta, considera-se que o pensamento se ajusta ao objeto – seus maiores representantes são Aristóteles e Santo Tomás de Aquino -, já a filosofia fechada é aquela que afirma que é o objeto que se ajusta ao pensamento – Kant e Descartes.

A filosofia aberta é, realista porque submete a razão às exigências do objeto enquanto que a fechada nada mais é do que um produto do sujeito, ou seja, é predominantemente idealista.

Santo Tomás de Aquino – que é um dos maiores representantes das filosofias abertas objetivas – será experimental, analítico, racional, crítico e psicológico dependendo do objeto a ser estudado, utilizando-se, portanto, do realismo, da fé, da crítica, da análise, da observação e da experimentação para atingir os conhecimentos verdadeiros da realidade.


8. Razão e Revelação

Este é o problema final abordado pela filosofia. Santo Tomás de Aquino resolve essa questão, afirmando que nem tudo o que sabemos sobre Deus, o sabemos por via da razão natural. Significa, então, que conhecemos alguma coisa de Deus por razão natural e outras por meio da revelação.

Afirma, ainda, que por ser o homem dependente da matéria e, consequentemente dos sentido, não lhe é possível conhecer inteiramente a Deus que, por sua vez, é substância totalmente espiritual. Há, portanto, coisas a respeito de Deus que conhecemos por intermédio da fé.

Ainda sobre o tema da revelação, Santo Tomás de Aquino a fundamenta tomando como base dois argumentos: o primeiro consiste no fim supremo da salvação do homem, ou seja, o homem para salvar-se necessitaria conhecer certas verdades que condicionaram seu comportamento, essas verdades deveriam, então, ser reveladas por Deus. O outro argumento visa mostrar a limitação da razão humana frente a todas essências existentes a serem conhecidas, o exercício da fé seria, assim, um remate à essa atividade humana tão limitada.

Conclui-se, pois, mediante o exposto, que razão e fé complementam-se, nào podendo sobrepor-se, ou seja, o que for explicado pela razão não será explicado de maneira diversa pela fé e vice-versa. Contudo, se por meio da razão for impossível chegar-se ao conhecimento de algo, a fé poderá remediar essa lacuna – o mesmo poderá acontecer caso algo não possa ser somente fundamentado pelas vias de fé.


9. Filosofia e Teologia

Para Santo Tomás de Aquino, Filosofia e Teologia podem e devem ajudar-se mutuamente. Apesar de cada uma proceder segundo suas modalidades peculiares – o filósofo demonstra por razões evidentes e o teólogo apela à autoridade suprema da revelação divina -, ambas fundam-se sobre a mesma base que é a unidade objetiva da verdade. Mais ainda, verdade e fé não podem se contradizer nunca, pois é o mesmo Deus o autor de nossa razão e o autor da revelação.




Críticas ou sugestões sobre este conteúdo? Clique aqui.