A intuição como método da Filosofia


27/fev/2002

Descartes foi o primeiro filósofo moderno que se utilizou da intuição, primária, para reconstruir todo o sistema filosófico, fazendo desse método, o primordial de sua filosofia. Outros filósofos posteriores também fizeram amplo uso da intuição.

Por Regina Ferretto D'Azevedo

1. Método discursivo e método intuitivo

Descartes foi o primeiro filósofo moderno que se utilizou da intuição, primária, para reconstruir todo o sistema filosófico, fazendo desse método, o primordial de sua filosofia. Outros filósofos, posteriores a Descartes, também fizeram amplo uso da intuição: Fichte, Schelling, Hegel e Schopenhauer (filósofos alemães). Ainda hoje, vale ressaltar, que a intuição é largamente utilizada nos estudos filosóficos.

A intuição consiste num único ato do espírito, ou seja, por meio dessa obtém-se um conhecimento imediato que vai diretamente ao objeto, tratando-se, portanto, de um método direto. Em contraposição, há o método discursivo que atinge o conhecimento através da formulação de várias teses que serão aprimoradas até atingirem a realidade completa do objeto, ou melhor dizendo, o conceito. Em suma, trata-se de um método indireto pelo qual se atinge um conhecimento mediato.


2. A intuição sensível

Existem vários tipos de intuição e um deles é a intuição sensível. Essa é o exemplo mais característico de intuição porque a praticamos a todo momento quando percebemos e captamos os objetos. É, pois, uma intuição imediata, isto é, uma relação direta entre o sujeito e o objeto.

Entretanto, essa modalidade de intuição não pode ser empregada pelo filósofo na busca do conhecimento por dois motivos fundamentais: a intuição sensível só pode ser aplicada a objetos que possam ser apreendidos pelos sentidos, não sendo captados, assim, os objetos não sensíveis. Além disso, possui caráter individual, não permitindo, por conseguinte, que se atinja a universalidade ou a generalidade dos objetos – objetivo a que se presta a filosofia.


3. A intuição espiritual

Outra modalidade de intuição é a intuição espiritual que, ao contrario do conhecimento discursivo, não necessita de demonstração, pois se trata de uma visão direta do espírito, assim como o princípio da contradição. Um exemplo de intuição espiritual é a diferenciação que fazemos entre um objeto e outro, ou seja, a relação de diferença é decorrência de um objeto de uma intuição e não de um objeto sensível.

Conclui-se daí que a intuição espiritual tem sempre como objeto uma relação, relação esta de caráter formal. Isto significa que esta intuição do espírito refere-se à forma dos objetos e não ao seu conteúdo.

Assim como a intuição sensível, a intuição espiritual não é bastante na construção de uma doutrina filosófica, isto porque não há como se penetrar na essência da realidade das coisas por meio, somente, de formalismos. Por esse motivo, existe, ainda, outra modalidade de intuição que é a intuição real. Essa sai do espírito e vai ao encontro da realidade e existencial dos objetos, isto é, vai ao fundo da coisa.


4. A intuição intelectual, emotiva e volitiva

A intuição real pode dividir-se em três categorias. Quando predominarem as faculdades intelectuais do filósofo, a intuição será intelectual, a qual terá no objeto seu correlato exato. Essa intuição consiste, então, em captar a essência de um objeto – aquilo o que o objeto é, os "éidos" – por meio de um ato direto do espírito.

Já quando predominarem motivos de caráter emocional, chamaremos a essa intuição de emotiva. Essa também possui seu correlato no objeto, buscando, porém, o valor do objeto.

Uma terceira espécie de intuição real é a intuição volitiva, em que os motivos derivam da vontade, referindo-se à realidade existencial do objeto, mais ainda, a existência do ser manifesta-se ao homem mediante essa intuição. Não diferentemente das duas primeiras, encontra seu correlato no objeto.


5. Representantes filosóficos de cada método intuitivo

A intuição intelectual pura é encontrada na Antiguidade, em Platão; na época moderna, em Descartes e nos filósofos idealistas alemães, Schelling e Schopenhauer.

A intuição emotiva, por sua vez, é encontrada na Antiguidade, em Plotino e, mais tarde, em Santo Agostinho – com refinamentos extraordinários; na Idade Média encontram-se partidários tanto da intuição intelectual quanto da emotiva; entre os pensadores modernos, há Spinoza que sob a forma de demonstrações geométricas manifesta sua intuição mística; também há Hume – filósofo inglês – para quem a existência de um mundo exterior não passa de uma crença, de um ato de fé, de um "belief".

Por último, a intuição volitiva é representada por Fichte – filósofo alemão – para quem a existência do eu depende de um ato da vontade, pois a realização da vida, que consiste em superar obstáculos, é a base de todo sistema filosófico.

Na filosofia contemporânea há, na realidade, um leque variado de modalidades em que a intuição se apresenta, pretendendo, assim, cada filósofo a utilização de um sistema. Classificaremos, a seguir, as três principais correntes.


6. A intuição de Bergson

Acredita Bergson que o único método que deve ser empregado no estudo filosófico é o intuitivo. Isto porque contrapõe a atividade intelectual – que consiste em fazer o que os cientistas e homens ordinários fazem: tornar as coisas estáticas, estudando, dessa maneira, somente o aspecto superficial da realidade – e a atividade intuitiva – que busca, por meio de metáforas, opondo-se à atividade do intelecto, conhecer e explicar uma realidade que flui no tempo, o movimento.


7. A intuição de Dilthey

Para Dilthey a intuição a ser utilizada nos estudos filosóficos deve ser a volitiva e, assim como Bergson, acredita que os métodos que se utilizam apenas do intelecto são suficientes para o estudo da filosofia. A existência das coisas, para esse filósofo, consiste em percebermo-nos como agentes, entes que possuem vontades e, conseqüentemente, que esbarram em dificuldades. Ao lutarmos contra essas dificuldades as transformamos em existências – filosofia existencial. Dilthey faz, ainda, menção à importância do passado e do presente para a vida humana, pois este último é um limite aos esforços procedentes do passado.

É importante ressaltar o filósofo francês Maine de Biran, que apesar de pouco destaque, talvez tenha sido o primeiro a denunciar a origem volitiva da existência, ressaltando a idéia da resistência que se opõe à vontade e a contribuição que as sensações musculares dão à formação da idéia do eu e das coisas.


8. A intuição de Husserl

Husserl aplica a intuição fenomenológica (intelectual) ao estudo filosófico, intuição essa que se relaciona ao pensamento platônico ou talvez também cartesiano. Esse procedimento consiste em, a partir de representações singulares – eliminando de nossa contemplação suas particularidades – chegar-se à essência geral do objeto.


9. Conclusão

Quando do estudo filosófico contemporâneo é de suma importância aplicar cada um dos três métodos de intuição às camadas de estudo do ser, não se restringindo apenas a um ou outro método.

Ao tratarmos das construções intelectuais, que não se preocupam com a origem ou essência do objeto – ciências matemáticas, físicas, biológicas, jurídicas e sociais – o método mais eficiente será a intuição fenomenológica, intelectual.

Entretanto, ao tentar captar aquilo que for pré-intelectual é necessário, primordialmente, descobrir a própria vivência do homem, a qual se depara com resistências e obstáculos que se tornam existências para, então, posteriormente, transformarem-se em essências a serem estudadas pela intuição intelectual.

Concluindo, nota-se que essas três categorias de intuição são complementares entre si, devendo ser utilizadas de acordo com a realidade onde estiverem situados os objetos a serem estudados.




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