Avante Brasil!


27/abr/2006

Nem o espaço será capaz de conter nossas esperanças.

Por Guilherme Arruda de Oliveira

Durante essa última semana do mês de março de 2006, vi e ouvi inúmeros fatos e acontecimentos que me deixaram ainda mais pensativo, e confesso extasiado. Não que o eclipse tenha tapado os meus olhos ao ponto de me imaginar lá no céu, sentindo a sombra da lua a cobrir a força do sol. Acordei apegado aos sonhos de criança, onde tinha a imensa vontade de conhecer o espaço, a lua, sentir de perto aquela imagem que somente vemos no cinema. Ah, como sonhei em ver a muralha da China de um ângulo diferente.

De volta ao mundo real, vi que ainda estava no Brasil e ao ligar a televisão me deparei novamente com uma série de absurdos, inclusive com a quebra abrupta do sigilo bancário de um cidadão de bem por alguns que se sentiam prejudicados e interessados em ver um homem trabalhador não assumir um lugar de destaque nos noticiários, pois infelizmente foi exatamente o inverso que ocorreu. Novamente a Constituição Federal é relegada a um plano inferior para que o interesse de algumas pessoas pudesse prevalecer., nada incomum em cometer erros, aliás a humanidade sempre procurou se justificar diante de seus erros.

Por alguns minutos, o cidadão brasileiro espera ansioso o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios, esperando ouvir nomes, punições severas, sanções disciplinares rígidas para que o nosso pais não se envergonhe dos seus homens públicos. Porém, ao final do relatório o que vemos é um emaranhado de nomes, e o resultado que tanto temíamos, milhares de folhas de papel e nenhuma resposta conclusiva, como se precisássemos de conclusão para emitirmos um parecer.

Pessoas receberam aquilo que não era justo e foram absolvidas por falta de provas. Por outro lado, pela mesma inexistência de provas, milhares de pessoas são condenadas em todos os lugares do mundo, pois deve prevalecer não a regra do in dubio pro reo, mas sim a regra do in dubio pro societatis. Não, a sociedade não quer ser beneficiada por erros crassos, por julgamentos indignos e por sentenças cruas, a sociedade não quer sentir a vergonha na pele e a certeza de que em nosso país nada acontecerá aos grandes, porque quanto aos pequenos, ora esse destino é certo, punição rigorosa até a última conseqüência. Por um lado, fala-se em milhões de reais e claro sem provas não há como condenar ninguém, por outro lado, por um pote de manteiga furtado por uma mãe de família, sem antecedentes criminais, não existem motivos suficientes para a liberdade dessa criminosa, nem diante dos princípios constitucionais, nem face a jurisprudência dominante, como se fosse crime em nosso país sentir fome, e diante disso por mais de 03 (três) meses uma pessoa é condenada sem que exista crime, e por um momento desejei estar no espaço, para que não pudesse ter presenciado tal fato.

Por falar em espaço, o desejo de muitos brasileiros é que não nosso astronauta fosse para lá, mas que a corja da vergonha e do menoscabo fosse direcionada para uma missão sem retorno, talvez assim estaríamos por ora livres da angústia de saber que nada, nada terá uma resposta concreta. Minhas escusas a todos que entendem de maneira contrária, não precisamos de discursos, não precisamos de olhares, precisamos de atitudes concretas, precisamos de resposta. Não precisamos que a resposta venha da mídia, precisamos que a resposta venha da alma.

Mas mesmo diante do mensalão, dos senhores que quebram sigilo bancário por ato unilateral, por entre o crescente índice de desenvolvimento econômico do Brasil, pela taxa de juros, pelas articulações políticas, pela miséria que nos deixa ainda mais envergonhados, vislumbro há milhares de quilômetros em Baikonur no Cazaquistão, a atenção mundial voltada para um brasileiro que de fato leva milhares de sonhos ao espaço. Muitos o criticam porque o Brasil tem gastado muito, com um tipo de experimento que não pode ter retorno direto. Ao que pese, as opiniões em contrário a corrupção nunca teve retorno direto ou imediato para um povo que deseja ardentemente viver. Talvez somente o que foi gasto esse ano com sessões extraordinárias, mensalões, defesas, etc. daria para enviar não só um astronauta ao espaço, mas quem sabe uns 20,200, 2.000.

Por fim, me emocionei não diante das críticas ou da renúncia do Ministro da Fazenda, mas quando vi dentro da nave Soyuz, os dois dedos do astronauta indicando a bandeira do Brasil, não por uma questão de imagem, mas por uma questão de orgulho. E vi, que naquela noite ainda dá para ter vontade de ser brasileiro. Talvez esse orgulho venha de forma acentuada faltando meses para a copa do mundo de futebol, mas é orgulho de ver um povo que sabe sobreviver, a míngua de uma política social, que sabe acreditar que vale a pena e que todos nós podemos chegar mais longe quando quase todo mundo já não acredita mais.

Tenho a certeza absoluta e plena convicção de que naquela noite dos fins de Março de 2006, muitos corações brasileiros, apesar da dor e da vergonha se sentiram orgulhosos, mesmo sem saber o que significa uma viagem espacial, mesmo sem entender de números. E novamente chegaram a acreditar que a esperança nos levará ainda mais alto. Não resta dúvida que a Soyuz ficou mais pesada quando do seu lançamento pois levou de carona, milhares de brasileiros, que sonhavam como o Tenente Coronel em ir ao espaço. Lá não há limite para sonhar e tão pouco limite para crer que depois do eclipse ainda dá tempo de ser diferente. Avante Brasil!



Veja mais conteúdo relacionado


Corrupção: uma explanação filosófica sobre uma "onerosa e reincidente" realidade humana

17/ago/2005 por Suzana J. de Oliveira Carmo. Trata do tema sob uma visão filosófia, onde a autora disserta com clareza sobre este mal socio-cultural, busca demonstrar que a corrupção é uma distorção do caráter humano, sendo mais explícito, repugnante e oneroso na órbita política.

CPI dos Correios: relatório reafirma existência do "mensalão"

30/mar/2006. O relatório final do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) divulgado ontem (29) reafirma a existência do chamado "mensalão" (pagamento a parlamentares por votos), conforme o próprio Serraglio já havia indicado em relatório parcial divulgado em setembro, conjuntamente com a CPI do Mensalão. Serraglio define a prática como "uma variante de corrupção da...

Novos Artigos


Da acareação no Processo Penal

Casamento civil e união homoafetiva

Aviso-prévio proporcional: ônus ou bônus?

veja mais


Teste já seus conhecimentos jurídicos

Responda as questões e veja seu aproveitamento e o gabarito comentado:



Críticas ou sugestões sobre este conteúdo? Clique aqui.