Inclusão Digital X Analfabetismo


13/mai/2005

Também chamada por alguns de Apartheid Digital, a Exclusão Digital vem crescendo em progressão geométrica com a informatização do serviços públicos básicos. Discutir a Inclusão Digital é algo novo para a sociedade brasileira.

Por Willian Lofy

INTRODUÇÃO:

Também chamada por alguns de Apartheid Digital, a Exclusão Digital vem crescendo em progressão geométrica com a informatização do serviços públicos básicos. Discutir a Inclusão Digital é algo novo para a sociedade brasileira. Salvo um grupo restrito de pessoas que já vêm trabalhando com o tema há algum tempo, não se pode dizer que este é um conceito amplamente conhecido. As longas filas em bancos são um exemplo deste "estar fora". Quem perde horas nelas para sacar dinheiro ou pagar contas, em sua esmagadora maioria, são idosos ou pessoas que, não "estão preparadas". Ir ao caixa eletrônico não é só passar o cartão na máquina, mas ter assimilado o raciocínio de quem criou aquela máquina. Voltar, anular, entrar. Expressões comuns para quem "navega" pela internet se tornam vocabulário grego para analfabetos digitais.


SÍNTESE HISTÓRICA EVOLUTIVA:

No ano de 1957 foi posto em órbita o satélite Sputnik, sendo que após uma dezena de anos o ser humano desvencilhou-se da força da gravidade da terra e chegou a lua. Na metade do século XIX foi inventado o telégrafo por Samuel Morse; no ano de 1876 foi criado o telefone pelo escocês Alexander Graham Bell; os irmãos Lumière, em 1895, são responsáveis pela primeira reprodução pública de imagens em movimento, que deu origem ao cinema. Ato contínuo, no ano de 1935, deu-se a primeira transmissão de imagem pela televisão e a construção de computadores e de microprocessadores de dados.

Desta apertada síntese de alguns dos acontecimentos históricos que influenciaram de forma relevante a evolução da espécie humana, cabe dar ênfase aos últimos eventos supra mencionados, que abriram grandes possibilidades a quase instantânea divulgação de informações, sendo uma das mais importantes, senão a mais importante, das conseqüências evolutiva histórica do ponto de vista social.


INCLUSÃO DIGITAL E TELECENTROS:

O desenvolvimento tecnológico avança em velocidade tamanha, principalmente nos últimos tempos, que é impossível o ser humano acompanhá-lo, ou seja, a capacidade de invenção do ser humano jamais vai chegar a acompanhar a capacidade de desenvolvimento tecnológico, sendo que eles nunca andaram juntos. Existem previsões de estudiosos na área da sociologia, que acreditam que no ano de 2015 a grande maioria das pessoas, diante da tamanha e veloz evolução tecnológica, não terão o que fazer no mercado de trabalho, por não conseguirem, ou na grande maioria das vezes não terem chances, de andar passo a passo com o desenvolvimento.

Diante de tamanha evolução, é de caráter urgente as medidas que devem ser tomadas no sentido de dar oportunidade e tempo para que pessoas excluídas do mundo da informação possam se qualificar.

Vivemos em uma época que o ser com capacidade de raciocinar que ignora ou indispõe de possibilidades para o uso de um micro-computador, estará fadado a total exclusão digital e conseqüentemente, em um futuro próximo, sofrerá a exclusão social.

Com o quadro que se apresenta na atualidade, qual seja, a evolução frenética da tecnologia, com enfoque maior na área dos computadores, vem se falando cada vez mais em inclusão digital. Qual o significado deste termo? Para que serve? Isto diminuirá ou aumentará o índice de pessoas excluídas do avanço tecnológico?

Primeiramente é bom esclarecer que a inclusão digital está intimamente ligada a inclusão social, pelo fato de haver uma democratização do acesso à informação disponibilizando tecnologia à população. Cabe ressaltar que o principal objetivo não é disponibilizar a tecnologia em si, mas sim a integração perfeita do indivíduo excluído digitalmente na sociedade.

Diante do exposto, quando se terá um resultado para reverter a situação do analfabetismo digital? Simples: A exclusão digital acabará quando o “usuário aprende que o computador é um meio de acesso à educação, ao trabalho, ao contato e troca com a sua comunidade, ao pensamento crítico e ao exercício pleno de sua cidadania”. [1]

Impossível falar em inclusão digital sem sabermos o que são os Telecentros. Segundo o autor Sérgio Amadeu da Silveira, Telecentro é considerada a “forma mais ampla de acesso físico ao computador e à Internet”. Completando o significado, relata ainda o mesmo autor que “telecentro é um espaço físico em que são colocados alguns computadores conectados à Internet para uso comunitário, em geral gratuito.” [2]

Como forma de esclarecer melhor o significado de telecentro, usaremos o conceito do autor Lúcio Eduardo Darelli, um dos fundadores do primeiro Telecentro da América Latina, qual seja, “um centro de alta tecnologia que oferece serviços totalmente informatizados à população em geral e ao segmento econômico, além de ser um grande apoio ao processo educativo local.” Dentro da mesma perspectiva complementa o autor: “Em outro sentido, pode-se dizer que serve como um item de tecnologia alavancador sócio-econômico-cultural de determinada região urbana ou área remota.” [3] (Grifo original)

Pelo exposto acima, é indubitável a necessidade da inclusão digital de grande parte da população excluída deste universo tecnológico. Precisam ser tomadas medidas de urgência por estarmos à beira de um colapso revolucionário social, diante do elevando número de cidadãos desconhecedores de informações vitais, que dão condições de trabalho e sobrevivência no mudo capitalista em que vivemos.

Falando em números, podemos citar algumas estatísticas [4] para comprovar que grande parte da população brasileira é digitalmente excluída. Se não vejamos: 18,5 milhões de pessoas com mais de 16 anos, aproximadamente 10% , acessa a Internet de qualquer local – casa, trabalho ou escola. Quando focalizamos na questão renda, a exclusão fica mais explícita: 80% da população das classes A e B têm acesso à Internet. Já na classe C, este percentual cai para 23%, enquanto nas classes D e E, temos ínfimos 6%.


O ANALFABETISMO NO BRASIL:

Necessário se faz um breve comentário sobre a atual situação que atravessa o Brasil com relação ao analfabetismo para podermos traçar um paralelo entre a inclusão digital e a possibilidade de inclusão da população considerada analfabeta. Segundo pesquisas mais recentes, o índice de analfabetismo no Brasil alcança a cifra de 12,4% [5].

O caminho da inclusão digital passa por empecilhos governamentais, bem como pela própria condição educacional precária em nosso país. Verbas públicas são hoje destinadas para programas específicos com objetivo de acabar com a fome de milhões de brasileiros, que estão abaixo da linha da pobreza. Aliado a isso, o analfabetismo no Brasil em grande escala é entrave para o acesso irrestrito das pessoas no mundo da informática. O administrador público se vê rodeado então de duas prioridades que nos dias atuais não pode deixar de dar atenção, quais sejam, o combate à fome no Brasil, e o analfabetismo.

Estes dois pontos cruciais inibidores do desenvolvimento econômico-social de qualquer país, também afetam, por óbvio, as políticas públicas e privadas que visam à inclusão digital de nossa população. Os recursos públicos destinados a este tema, objetivando disponibilizar computadores à população de baixa renda, vão primeiramente passar por importantes ações governamentais de combate à exclusão social em nosso país. Deste modo, os recursos para a aquisição dos mecanismos necessários a inclusão digital serão mínimos se comparáveis a atual demanda.

Não podemos concordar, como defendem alguns especialistas na matéria, que a inclusão digital favorecerá a diminuição do analfabetismo no Brasil. Os processos pedagógicos atuais que visam dotar o indivíduo das duas condicionantes elementares para o exercício mínimo de sua cidadania: ler e escrever, não foram suplantados pelo uso da informática. A informática, por sua vez, neste diapasão, ocupa lugar de destaque após este processo, ou seja, na alfabetização digital dos já alfabetizados nos processos educacionais tradicionais.

Em suma, para que meios de inclusão digital sejam oferecidos de forma maciça pelos órgãos públicos e privados e, que estes elementos disponíveis possuam eficácia garantida em seu público alvo, é necessário o combate irrestrito e permanente à fome, a pobreza e ao analfabetismo em nosso país, com a disposição de recursos vultosos para estes fins e por último o engajamento da sociedade civil organizada fiscalizando as ações de governo, como também atuando em parceria com os órgãos públicos.


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Embora existam entraves ao incremento da inclusão digital em nosso país, é necessária a adoção de políticas públicas voltadas a este objetivo, sob pena de criarmos em pouco tempo um abismo quase intransponível entre a população brasileira, ou seja, os alfabetizados digitalmente e os excluídos digitais.

Não se trata aqui de políticas “faz-de-conta” que circundam o meio em que vivemos, e sim de medidas efetivas que disponibilizem e capacitem pessoas para sua inserção no mundo digital e aos serviços dele decorrentes, básicos para o exercício de sua cidadania. Aqui, cabe ainda a participação da sociedade organizada, preenchendo lacunas deixadas pelos órgãos estatais, como também, participando efetivamente deste processo com a adoção de medidas que façam com que a população seja informada a importância deste tema para o seu crescimento individual, bem como para a evolução social, educacional, cultural e econômica do Brasil como um todo.

Fazendo a relação entre a inclusão digital e o analfabetismo, chegamos à conclusão de que na realidade existem duas espécies principais de exclusão digital que devem ser analisadas. A exclusão das pessoas alfabetizadas e a exclusão dos analfabetos.

Procuramos destacar essas duas espécies de indivíduos, justamente por haver um tratamento diferenciado no que toca a inclusão digital. Vejamos: Para pessoas que sabem ler e escrever, sem sombra de dúvida será mais viável e atrativo o uso, interesse e incentivo ao computador. Tratando das pessoas analfabetas, a passagem pelo processo educacional tradicional é condição sine qua non para vislumbrarmos sua inclusão futura no mundo digital.

Acreditamos que os recursos para inclusão digital deverão partir principalmente de entes privados, posto que o Estado deve se preocupar muito mais com outras necessidades básicas da população esquecidas ao longo do tempo.

Deste modo para que possamos futuramente acabar com o analfabetismo digital, precisamos primeiramente erradicar o analfabetismo que assola e predomina no Brasil.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ELETRÔNICAS:

1. PASOLD, César Luiz. Prática da Pesquisa Jurídica: idéias e ferramentas úteis para o pesquisador do Direito. 7ª edição. Florianópolis: OAB Editora, 2003.

2. Revista i-Coletiva. www.icoletiva.com.br.

3. SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Exclusão Digital – A miséria na era da informação. Editora Fundação Perseu Abramo – São Paulo – 2001.

4. DARELLI, Lúcio Eduardo. Telecentro como instrumento de inclusão digital para o e-gov brasileiro. http://www.sj.univali.br/prof/Lucio%20Eduardo%20Darelli/TELECENTRO/artigo-telecentro.pdf

5. Folha Online: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u13725.shtml.

6. Pesquisa nacional por amostra de domicílios 2001: microdados. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. 1 CD-ROM.



[1] Citação retirada do sítio www.icoletiva.com.br

[2] SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Exclusão Digital – A miséria na era da informação. Editora Fundação Perseu Abramo – São Paulo – 2001.

[3] Citação retirada do sítio www.sj.univali.br/prof/Lucio%20Eduardo%20Darelli/TELECENTRO/artigo-telecentro.pdf

[4] Dados extraídos do sítio Folha Online: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u13725.shtml

[5] Pesquisa nacional por amostra de domicílios 2001: microdados. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. 1 CD-ROM.




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